Um olhar sobre a obra de Erving Goffman

resenha_representacaodoeunavidacotidianaGOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana.
Editora Vozes. Petrópolis 2009.
por Sibelle Medeiros

O livro

No livro “A representação do eu na vida cotidiana” (2009), publicado pela primeira vez em 1959, o autor se utiliza da metáfora do teatro para abordar a questão das relações interpessoais. Interessa-lhe sobretudo discutir a interação face a face. De sua perspectiva, em encontro de interação frente a outras pessoas, transmitimos – de modo consciente ou inconsciente- uma determinada impressão sobre nós mesmos. Para isso, interpretamos de modo constante o papel que queremos transmitir, assumindo personagens e nos tornando atores em um determinado encontro de interação social.

Na introdução deste livro, o autor afirma que os indivíduos, em encontro de interação,  procuram obter informação a respeito do outro (observador co-participante do encontro de interação) com a finalidade de antecipar e estabelecer as  expectativas deste observador para, de uma determinado encontro socialdefinir qual a melhor maneira de agir, ou seja, escolher a personagem que irá utilizar ao longo do encontro de interação. Convém afirmar que o autor considera a interação (ou encontro) como um fenômeno face-a-face de sujeitos envolvidos que buscam através da performance a melhor maneira de agir perante uma situação .

O autor também atenta que tais informações servem como veículos de indícios.  Por exemplo, na perspectiva de Goffman, ao encontrarmos um desconhecido analisaremos fatores relacionados à sua conduta e a sua aparência. Também utilizaremos as nossas experiências anteriores ou estabeleceremos estereótipos não comprovados que nos auxiliarão no encontro de interação . Porém, se já conhecemos o sujeito envolvido no processo interacional procuraremos a persistência e generalidade de determinados traços psicológicos como uma maneira de prever o comportamento futuro daquela pessoa.

No entanto, muitos fatos decisivos do comportamento dos sujeitos estão além da interação e dos aspectos relacionados ao tempo e ao lugar em que ocorrem. Aspectos relacionados as emoções e as crenças de um individuo, por exemplo, só podem ser verificados através de confissões ou de comportamentos expressivos involuntários.

Goffman (2009) afirma que a expressividade do individuo, ou seja, a sua capacidade de dar impressão envolve dois tipos de expressão. A primeira seria a expressão transmitida através de símbolos verbais e seus substitutos e estaria ligada a uma ideia de comunicação no sentido tradicional. Já a segunda, seria a expressão emitida onde as ações do ator ganham força. Esta última é uma forma de expressão não intencional e contextual. A expressão transmitida parte da leitura que fazemos do outro, da antecipação e do estabelecimento de suas expectativas. É a partir desta leitura que elegemos a face que utilizaremos no encontro de comunicação e, consequentemente, os símbolos verbais que comporão nosso discurso. A expressão transmitida é intencional. Já a expressão emitida congrega os simbolos não verbais, nossos gestos, olhares, nossa postura, tudo aquilo que, muitas vezes passa despercebido a nós mesmos, mas torna-se visível ao outro. A expressão emitida é não intencional.

Assim, quando estamos na presença de outros indivíduos passamos a exercer uma atividade de caráter promissório, baseada, sobretudo, na relação de confiança entre as partes envolvidas, no desejo de participar do encontro de comunicação e de inferências resultantes da antecipação e do estabelecimento de expectativas. Dessa maneira, existe um jogo de interesses onde buscamos contornar a impressão das outras partes envolvidas e estabelecer a harmonia para a  manutenção da interação.

Mais do que isso, Goffman (2009) afirma que buscamos constantemente regular nossa conduta e a maneira como somos tratados através da nossa performance. Para tanto, formamos nossa impressão a partir, principalmente, da observação da fala do outro, ou seja, da expressão transmitida (fala governável, intencional) e também de sua expressão emitida (ações, posturas incontroláveis na maioria das vezes). Logo, para obtermos a resposta desejada em um encontro social, podemos agir de maneira calculada ou com pouca consciência do papel que estamos a desempenhar. Quanto mais calculada for a nossa performance em uma encontro de interação maior a possibilidade tanto de harmonia (quando o jogo que está sendo jogado tem em vista o crescimento de ambos os indivíduos) quanto de indução ao erro (quando o jogo que está sendo jogado tem em vista a manipulação do outro) .Em  outro texto de sua autoria chamado “A situação Negligenciada”, Goffman (2002) sustenta que a fala (expressão transmitida), portanto, é um fenômeno socialmente organizado como um sistema de ações face a face que são ratificadas e ritualmente governadas entre os participantes do encontro social.  Desse modo, existem pistas à disposição dos participantes que ratificaram a fala para requisitar a mesma e cedê-la ao outro.  Esta colaboração entre os participantes deve ser mantida ao longo da conversa com a finalidade de garantir que um determinado turno de fala não se sobreponha ao anterior em demasia e que não exista falta de um acréscimo conversacional considerado supérfluo.

No entanto, o autor atenta para a existência de uma assimetria entre falante e observador, pois enquanto falantes só temos maior consciência do nosso fluxo verbal (expressão transmitida). A assimetria ocorre, pois o observador pode perceber com maior facilidade a existência de variações de conduta do falante (expressão emitida). O observador também auxilia no processo de construção do encontro social em virtude da resposta dada a ação anterior, buscando na maioria das vezes co-construir uma interação harmoniosa através da ocultação de desejos e anseios que possam gerar conflitos. Goffman (2009) nomeia esta atitude de evitar conflitos abertos de consenso operacional, atentando para o fato de que o consenso estabelecido em um cenário de interação possui necessariamente diferenças de conteúdos estabelecidos em outros cenários. Por exemplo, a relação entre médico e paciente é diferente da relação entre dois amigos.

Neste sentido, o autor apresenta o conceito de fachada que é composto pelo equipamento expressivo dos sujeitos. A fachada possui dos elementos: o cenário e a fachada pessoal. Além de veículos de transmissão de sinais fixos (como a idade e o sexo) e transitórios (como a expressão facial).

No capítulo um, de “A representação do eu na vida cotidiana” o autor apresenta dois conceitos importantes que auxiliam a questão do designer no cotidiano. O primeiro diz respeito a crença no papel que desempenhamos. Neste âmbito, Goffman (2009) afirma que existem dois tipos de atores que assumem personagens no encontro de interação, são eles: o sincero, que está convencido e que acredita na sua situação e o cínico, que não crê em sua atuação e não se interessa no que seu publico acredita. Porém, o ator cínico pode enganar o público para o que acredita ser o bem de sua comunidade. Como somos sujeitos marcados pela instabilidade podemos criar ciclos que vão da descrença a crença e vice-e-versa de nossos personagens, dependendo da performance que assumamos.

Por que ler Goffman?

A representação do eu na vida cotidiana participa da mudança de concepção acerca das relações interpessoais em situação de interação. O livro, escrito em 1959, participa ou faz emergir, de discussões que dão conta não apenas do discurso escrito, mas também do discurso oral. Além disso o livro participa de um cenário de  queda do estruturalismo e de início de um pensamento pós-estruturalista.

Em relação as Teorias de Comunicação e Informação, Goffman posta os olhos em modelos de comunicação diferentes dos de base matemática, vigentes até então, onde havia a predominância do emissor sobre o destinatário, ou seja, do sujeito intencional sobre o sujeito paciente, em cuja relação cabiam os papéis de emitir e acatar no lugar de interagir. Entendendo o encontro comunicacional como resultado  da escolha de performances, como vinculado a antecipações e ao estabelecimento de expectativas para com o outro (observador), Erwing Goffman ora participa ora antecipa da quebra de padrões vigentes.

Sugestões de reflexão

  1. Pense sobre o texto substituindo emissão transmitida (fala) e emissão emitida (conduta) por um objeto ou sistema de informação projetado por vocês em disciplina de projeto. Como se dá o encontro comunicacional? Onde o objeto/sistema transmite? Onde ele emite?
  2. Pense no encontro comunicacional considerando você (designer) o indivíduo que emite/transmite e o observador como o cliente/usuário/parceiro/intercessor. Você também antecipa e estabelece expectativas? Como é o processo?
  3. Pense no campo do Design e no designer profissional participante do cotidiano. Exemplifique com situações de atuação sincera e com situações de atuação cínica.

 

Referências bibliográficas:

GOFFMAN, Erving. A representação do eu na vida cotidiana. Petrópolis: Vozes, 2009.

_____.  A Situação Negligenciada.  In BT Ribeiro e P. Garcez (Eds.). Sociolinguística Interacional. São Paulo: Loyola, 2002. P 13.20

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